Notícias de Mercado

28/01/19

Avanço da tecnologia permite emprego no exterior sem cruzar a fronteira

E se um dia você não precisar sair de casa para conseguir um bom emprego no exterior? É cada vez mais comum a prestação remota de serviços transnacionais. Se o processo de globalização, ao derrubar as fronteiras físicas entre mercadorias do mundo inteiro, foi o suficiente para desencadear uma guerra comercial sem precedentes entre Estados Unidos e China — as duas maiores economias do planeta —, esta que está sendo chamada de sua versão 4.0 promete criar ainda mais polêmica entre os mercados. Isso porque, agora, afeta em cheio o setor de serviços.

 

O avanço das novas tecnologias já permite que empresas busquem seus talentos mundo afora, sem que eles precisem, necessariamente, sair do lugar. Plataformas de empregos freelancer internacionais começam a proliferar pela internet — a UpWork.com é uma das maiores.

 

O tempo dirá se a novidade é boa ou ruim para os trabalhadores. Como em toda competição, há sempre aquele que perde e aquele que ganha. Para os trabalhadores de países emergentes, pode ser a promessa de melhores salários. Para os empregados de nações desenvolvidas, a redução do pagamento. Para todos, pode significar a deterioração das relações de trabalho, o fim de direitos trabalhistas e certa insegurança nos mercados.

 

A imigração de trabalhadores que deixam seus países atrás de novas oportunidades em outros que ofereçam melhores condições de trabalho tornou-se um dos principais temas do século XXI. Municiou o discurso de partidos e governos populistas e, segundo alguns economistas, virou o bode expiatório das deficiências das políticas implementadas pelos países que recebem mão de obra de fora. Tem sido assim na Europa. E foi um dos fatores que mais pesaram na decisão dos britânicos ao votar pelo Brexit, processo que os fará deixar a União Europeia a partir de 29 de março.

 

Mas o que acontecerá quando esses imigrantes não precisarem mais cruzar as fronteiras? Será a nova “telemigração”, nas palavras de Richard Baldwin, professor de política econômica da Universidade de Genebra, que lançou no Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, seu novo livro, “The globotics upheaval: globalisation, robotics and the future of work” (“A revolta da ‘globótica’: globalização, robótica e o futuro do trabalho”, em tradução livre).

 

Chance para emergentes

 

Em entrevista ao GLOBO, ele destaca que a globalização 4.0 pode criar uma oportunidade de exportação para os países emergentes. Segundo ele, os salários do setor de serviço são uma das últimas grandes oportunidades de “arbitragem” global. O pagamento para tarefas rotineiras semelhantes pode variar até dez vezes entre países.

 

— O brasileiro, pelo menos a classe média com algum nível de educação, tem muitas qualificações que empresas americanas ficariam felizes de ter a salários brasileiros. Isso vai acontecer a partir das plataformas de freelancer, em princípio — diz Baldwin.

 

O professor não acha que a mudança vai aumentar a distância entre países desenvolvidos, onde há mais mão de obra qualificada, e os emergentes. Mas tampouco acredita que as mesmas oportunidades se replicarão para as nações mais pobres, uma vez que sua conectividade é menor e poucos cidadãos têm qualificações consideradas úteis nos escritórios dos EUA e da Europa.

 

— Isso significa que o milagre do mercado emergente vai continuar a se espalhar. Como são serviços e trabalhos de escritório, acho que haverá um problema de fuso horário que fará da América do Sul uma opção melhor que, por exemplo, a Ásia. Pelo menos para os EUA.

 

Se muitos especialistas consideram a globalização 4.0 capaz de trazer muitos benefícios para a economia global, ela certamente exige cuidados.

 

— A globalização 4.0 apenas começou, mas nós já estamos largamente despreparados para ela — alertou o fundador do Fórum Econômico de Davos, Klaus Schawb, ao anunciar o tema do encontro, realizado na semana passada, na Suíça: “Globalização 4.0: delineando um modelo para a arquitetura global na era da quarta Revolução Industrial”.

 

Para Christy Hoffman, secretária-geral da UNI União Global, uma federação sindical internacional, não se pode usar a globalização 4.0 como desculpa para retirar os direitos dos trabalhadores. Não é a automação, segundo ela, que está criando condições piores de trabalho, mas a decisão das próprias empresas:

 

— É o modelo de negócios das empresas e, não, a tecnologia. Num mundo em que 60% dos empregos são informais, é preciso brigar pelos direitos dos trabalhadores. Nos EUA, após a crise de 2008, o número de empregos temporários, ou sem segurança trabalhista, subiu 94%. Precisamos de um contrato social revigorado.

 

 

Fonte: O Globo - Rio de Janeiro

 


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