Notícias de Mercado

18/02/19

Indústria conta com reforma da Previdência para voltar a investir

Até a cerveja do fim de semana anda sujeita às expectativas em torno da aprovação da reforma da Previdência. Vários setores econômicos, de bebidas a medicamentos, passando por logística e varejo, traçam diferentes cenários de aumento nas vendas para ampliar produção e retomar investimentos de acordo com as chances de o principal projeto do governo de Jair Bolsonaro passar pelo Congresso. Com a promessa de a proposta chegar à Câmara no dia 20, representantes de setores industriais, de serviços e de infraestrutura calibram o otimismo sobre o impacto nos negócios. A maioria espera definição até o início do segundo semestre.

 

As cervejarias, por exemplo, traçaram três cenários para produção da bebida alcoólica mais consumida no Brasil, em função da reforma. Segundo a associação de fabricantes CervBrasil, a produção subiria 3% este ano, na comparação com 2018, se a reforma fosse aprovada ainda neste primeiro trimestre. Como o plano do governo é iniciar do zero a tramitação de uma nova proposta, o mais provável é que o aval só saia na segunda metade do ano. Nesse cenário, as cervejarias esperam um impacto menor, com alta na produção de 2% com solução até o início de julho ou estabilidade em relação a 2018 se for no fim do ano.

 

- Essas projeções representam o gatilho na rapidez da retomada que a reforma pode significar. Tirando o clima, a venda de cerveja está fortemente correlacionada com renda para consumo e preço. O nível de emprego e a massa salarial acelerarão com a reforma - diz Paulo Petroni, diretor executivo da CervBrasil, que espera novos investimentos com a ocupação da atual capacidade ociosa da indústria. - A reforma terá impacto direto nos planos das empresas, mas os efeitos não serão no curto prazo. O setor deve investir pouco mais de R$ 4 bilhões este ano. Com a reforma, os aportes podem voltar ao patamar anterior à crise, de R$ 6 bilhões, a partir de 2020.

 

Os cervejeiros são apenas uma das categorias de empresários que fazem coro com economistas no diagnóstico de que, ao renovar a confiança na capacidade do governo de equilibrar suas contas, a reforma da Previdência favorecerá juros baixos e, consequentemente, a retomada dos investimentos. Com novos projetos, mais empregos são gerados e cresce a renda disponível para consumo. No fim das contas, o que se espera é que a reforma impulsione toda a economia.

 

Wilson Melo, presidente do Conselho da Abia, associação que reúne produtores de alimentos e bebidas industrializados, diz que o setor nem considera um cenário sem reforma este ano. Se for aprovada até o início do primeiro semestre, a Abia projeta crescimento do setor alinhado ao esperado para o Produto Interno Bruto (PIB), entre 2% e 3%, nos cenários dos economistas que contemplam a reforma.

 

Juro baixo para investir

 

Mesma expectativa tem a Abimaq, que representa fabricantes de máquinas. O setor espera se beneficiar com investimentos das empresas, já que o controle dos gastos do governo favorece a redução dos juros, essencial para a retomada de projetos adiados pela crise.

 

- Em 2019, o maior efeito da reforma será o de aumentar a confiança para elevar investimentos que estavam em compasso de espera. De qualquer modo, considerando os tempos técnicos necessários, seus maiores efeitos serão sentidos a partir de 2020 - diz João Carlos Marchesan, presidente do Conselho da Abimaq.

 

Segundo a Abinee - que reúne fabricantes de eletroeletrônicos, componentes elétricos, celulares e computadores -, o setor tem 23% de sua capacidade parada, maior índice desde 2015, quando chegou a 30%. O presidente da associação, Humberto Barbato, diz que o impacto da reforma na economia é vital para que o setor volte a produzir a todo o vapor e possa planejar expansões e contratações:

 

- Esperamos que a reforma seja aprovada até junho, com reflexos positivos no segundo semestre. Isso vai permitir um aumento da nossa produção entre 4% e 5%. Sem reforma, a frustração será grande.

 

Fabio Bentes, economista da Confederação Nacional do Comércio (CNC), explica que os efeitos no varejo são indiretos, como custos mais baixos no crédito para compras e giro. Considerando uma reforma abrangente, a CNC projeta 200 mil novos empregos no comércio este ano, o dobro do registrado em 2018.

 

- Sem reforma, vai ser difícil manter a tendência de queda dos juros na ponta, e isso é muito importante para o comércio - diz Bentes.

 

Se mais gente for às compras, a cadeia logística que abastece o varejo também ganha mais. É o que espera Ramon Alcaraz, sócio da Fadel Transportes, que planeja expansão de 10% na frota de 1.100 caminhões em 2019. A operadora atende grandes empresas como Ambev e Pepsico, no Sul e no Sudeste. Nas contas dele, o faturamento anual de R$ 400 milhões pode crescer 20% se a reforma passar. Sem ela, a alta não passa de 10% e os investimentos ficam para 2020.

 

- A roda gigante da economia vai girar até chegar ao consumo e a uma maior disposição dos brasileiros em gastar, o que impacta diretamente o meu negócio.

 

Fonte: O Globo - Rio de Janeiro