Notícias de Mercado

03/01/17

Frigoríficos amargaram perdas em 2016



Custos de produção mais elevados, deterioração do mercado consumidor brasileiro e câmbio desfavorável à exportação prejudicaram as ações das empresas de carnes do país no ano passado. Nesse ambiente, os frigoríficos brasileiros tiveram um desempenho bem aquém do Ibovespa - o índice se valorizou 39% em 2016.



Entre as empresas de carnes brasileiras listadas na BM&FBovespa, a BRF teve o pior desempenho. Dona das marcas Sadia e Perdigão, a empresa líder do mercado brasileiro de alimentos processados (à base de carnes) perdeu R$ 9,1 bilhões em valor de mercado em 2016. No período, os papéis da companhia caíram quase 11% na bolsa. De certa forma, a trajetória descendente da BRF é uma continuidade de 2015. As ações da companhia liderada por Abilio Diniz já haviam se desvalorizado 11,4% naquele ano, pressionadas pelo movimento de perda de participação de mercado para marcas como a Seara, que pertence à JBS.



No último ano, o acirramento da concorrência que já vinha afetando a BRF se somou à corrosão da renda das famílias, intensificando o 'trade down' - a troca por marcas e categorias de produtos mais baratos. Mas não só. Em meados de 2016, o CEO da BRF, Pedro Faria, chegou a dizer que a empresa brasileira atravessava uma 'tempestade perfeita'.



Explica-se: o milho, responsável por cerca de 30% dos custos de produção da BRF, disparou em razão da quebra da safra brasileira de inverno. Também havia excesso de frango no Brasil e no mundo, o que dificultou o repasse para compensar a alta aos consumidores. Em importadores-chave, como a Arábia Saudita, o preço da carne de frango atingiu mínimas históricas. Também atingida pela conjunção negativa que afetou os mercados de frangos e suínos no Brasil, a JBS perdeu R$ 2,7 bilhões de valor de mercado de 2016, e as ações registraram recuo de 3,3%.



Além do momento difícil enfrentado pela subsidiária Seara, as ações da JBS também foram afetadas pela apreciação do real, o que prejudicou não só a margem das exportações da companhia, como também a receita das operações fora do Brasil. No caso da JBS, a receitas no exterior representam mais de 85% do total.



Diante do delicado cenário setorial e também das turbulências que cercaram a empresa - o CEO global Wesley Batista foi alvo de condução coercitiva pela Polícia Federal no âmbito da operação Greenfield -, o desempenho dos papéis da JBS poderia ter sido pior. Isso porque o BNDES vetou, em outubro, a reorganização societária que transferiria os ativos responsáveis por mais de 80% do faturamento da companhia à JBS Foods International, que teria sede na Irlanda e ações em Nova York. Quando o banco vetou a operação, a JBS perdeu R$ 3,9 bilhões em valor de mercado em um dia.



Em dezembro, porém, a JBS encontrou uma alternativa que entusiasmou os investidores e fez os papéis ganharem R$ 5 bilhões em valor de mercado em um só pregão. No lugar da criação da companhia irlandesa que controlaria os negócios no Brasil, a JBS Foods International será uma subsidiária sediada na Holanda. Com isso, a empresa permanecerá com o controle no país - o que evitará a desnacionalização criticada pelo BNDES. A subsidiária, que também terá ações na bolsa de Nova York, deve ajudar a 'destravar' valor aos acionistas, conforme analistas.



Segunda maior exportadora de carne bovina do Brasil e maior produtora da América do Sul, a Minerva Foods também viu suas ações desabarem. Em 2016, os papéis da companhia caíram 8,65%. Nesse caso, os custos mais elevados para adquirir boi gordo e a exportação menos rentável - a companhia elevou a fatia de vendas no Brasil em detrimento das exportações - foram os fatores de pressão sobre as ações.No entanto, como a Minerva fez um aumento de capital no primeiro semestre - o fundo saudita Salic investiu cerca de R$ 750 milhões para se tornar o segundo maior acionista -, o valor de mercado da empresa aumentou em R$ 360 milhões.



Na contramão, a Marfrig foi a única a registrar alta nas ações em 2016 - 4,09%. Os papéis, que patinaram na maior parte do ano, ganharam fôlego nos últimos meses com a confirmação de que as debêntures detidas pelo BNDES serão convertidas em ações e o aumento da participação do controlador, Marcos Molina. Em nota, a empresa avaliou que a melhor performance reflete o "reconhecimento" do trabalho de gestão de dívida e o "forte desempenho" da subsidiária Keystone.

 




Por Luiz Henrique Mendes



Fonte: Valor Econômico